Concurso e transferência: uma crítica espinosana ao contrato social de Hobbes

Daniel Santos da Silva

Resumo


O texto propõe um retorno a alguns conceitos e filósofos relevantes para o debate sobre o contrato social no século XVII: a partir de certos princípios sobre os quais se assenta o alcance inovador e crítico da teoria hobbesiana, e vendo no contrato social um suporte causal para o entendimento e a intervenção política, procuro compreender em que sentido o conceito de transferência deve convir ao de poder absoluto do soberano e o que isso implica de crítica à ideia de direito de resistência, como o entendia Althusius, e de defesa de uma ruptura radical entre tempos de guerra e de paz. Reconstruo com essa crítica a tese hobbesiana da obediência como fundamento da permanência da Cidade - e algumas consequências disso; finalmente, proponho uma hipótese sobre a obra de Espinosa que permita a desconstrução das ideias de transferência e de contrato, dentro de um campo de causalidade que põe o conflito e a resistência como constitutivos da própria sociabilidade, sem o essencial recurso ao conceito althusiano de representação, e sem o fundo despolitizador (em relação à multidão) presente na teoria de Hobbes.


Texto completo:

PDF

Referências


Althusius, J. Politica. Trad. de Demetrio Neri. Napoli: Guida Editori, 1980.

Andrade, F. D.. Pax spinozana. Direito natural e direito justo em Espinosa. Tese defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Usp, 2001.

Bobbio, N. Locke e il diritto naturale. Torino: Giappichelli, 1963.

Bove, L. La stratégie du conatus. Affirmation et résistence chez Spinoza. Paris: J. Vrin, 1996.

Duso, G. Il contratto sociale nella filosofia politica moderna. Milão: FrancoAngeli, 1993.

Espinosa, B. de. Tratado político. Trad. de Diogo Pires Aurélio. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

_____________. Ética. Trad. do Grupo de Estudos Espinosanos. São Paulo: Edusp, 2015.

_____________. Tratado teológico-político. Trad. Diogo Pires Aurélio. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Espósito, R. Ordine e conflitto. Machiavelli e la letteratura politica del Rinascimento italiano. Napoli: Liguori Editore, 1984.

Hobbes, T. Leviatã ou matéria, forma e poder de uma república eclesiástica e civil. Trad. de João Paulo Monteiro e Maria beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

__________. Do cidadão. Trad. Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Kantorowicz, E. H. Os dois corpos do rei. Um estudo sobre teologia política medieval. Trad. de Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Krom, Michael P. The limits of reason in Hobbes's commonwealth. Nova York: Continuum, 2011.

Lazzeri, C. Droit, pouvoir et liberté. Spinoza critique de Hobbes. Paris: Presses Universitaires de France, 1999.

Lucchese, F. del. Tumulti e indignatio. Conflitto, diritto e moltitudine in Machiavelli e Spinoza. Milano: Ghibli, 2004.

Macpherson, C.B. The political theory of possessive individualism: Hobbes to Locke. Oxford: Oxford University Press, 1962.

Morfino, V. Il tempo e l'occasione. L'incontro Spinoza Machiavelli. Milão: LED, 2002.

Thornton, H. State of nature or Eden? Thomas Hobbes and his contemporaries on the natural condition of human beings. Rochester: University of Rochester Press, 2005.

Visentin, S. La libertà necessaria. Teoria e pratica della democrazia in Spinoza. Pisa: Edizioni ETS, 2001.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.